bodas de aço.

João era o melhor lenhador de Santana. O melhor. “Eu simplesmente faço o meu trabalho” – dizia. Era um cara de poucas palavras. Chegava ao trabalho sempre antes do sol. Sentado ao pé de uma de suas futuras vítimas, observava o horizonte, como quem coordenasse a aurora todos os dias.

Durante um dia, entre um cigarro e outro, era capaz de derrubar 27 árvores. Seus colegas, no máximo 8. Nem ligava com a injustiça de ganhar o mesmo que os outros, ou até menos. Tinha esposa e 3 filhas. Tinha ambições também. Mas esquecia delas rapidamente quando lembrava das meninas em casa. O que tinha era suficiente para o sustento. Não arriscava quando o assunto era família. O tempo, passava.

Seu chefe também fora lenhador um dia. Agora, não mais. Só administrava. Admirava o trabalho de João. Muito. Observava todos os dias aquele homem. João era seu funcionário há mais de 10 anos.

Um dia pensou em premiar João de alguma forma. Grande parte de sua produção vinha do suor daquele lenhador. Nunca teve problemas com ele. Funcionário exemplar.

Véspera de aniversário dos 11 anos de João na fazenda. O chefe manda chamar o lenhador ao pequeno escritório, há uns 200 metros de onde ficavam os lenhadores. João estranhou o chamado. Nunca precisou ir ao escritório do chefe. “Será que fiz algo errado? Mas o que diabos poderia ser?” – pensava o preocupado João com as filhas na cabeça.

Ao entrar no escritório – um cômodo, mesa, duas cadeiras, um bebedouro pequeno e um armário – , encontrou seu chefe sentado em sua cadeira de chefe. Em cima da mesa uma caixa que preenchia metade dela. O chefe discursou sobre o quanto o trabalho de João era excelente, produtividade, empenho e dedicação nestes, agora, 11 anos de trabalho.

“Não deve ser nada demais. Quem sabe, um aumento! Um presente, talvez.” – João pensou, e sorriu aliviado.

O chefe continuou o seu discurso, sob o olhar atento e agora mais calmo de João para o pacote em cima da mesa. O chefe até perguntou se ele sabia qual eram as bodas que se faziam aos 11 anos de casamento. João ficou sem graça e disse que não entendia dessas coisas. O chefe contou a ele que eram bodas de aço, e que isso merecia um presente especial. Se levantou e entregou o pacote a João.

João sorriu novamente. Sentou-se e abriu a caixa. O presente: um machado novo.

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