legenda #3 | vinte e sete.

JR

traga a draga que estraga a praga que draga.

Em um ponto qualquer na linha do tempo, entre 14h e 18h30.

14h
Depois de cinco dias remando, encontraram um local bacana pra descansar. O rio, bem largo em quase toda a sua extensão, se tornou mais estreito e cheio de pedras. Carregaram a canoa pela margem uns 200 metros, pra evitar a descida por entre as pedras, o que poderia virar ou quebrar a canoa. Estavam cansados demais pra encararem uma situação dessas. Avistaram por entre os galhos, um espécie de prainha. Areia branca e um lago imenso. Chegaram. Encostaram a canoa debaixo de algumas árvores e se deitaram pra descansar. Eram três no total. Dois dormiram. Um ficou acordado, vigiando.

14h30
Era o primeiro dia de Jorge na mata. Seu pai já tinha preparado todo o material pra caça. O sol rachava mamonas e Jorge corria feito louco pelo pasto da fazenda. Mirava pra todos os lados a espingarda que ganhou de presente. “Jorge! Tá na hora! Pega suas coisas, se ajeita aí que vamo embora caçar!”. Em alguns minutos o garoto já tinha voltado e se preparado. Ficou esperando o pai, que logo saiu. Pegaram os cavalos e partiram.

14h45
Silvia gritava sem parar. O marido, coitado, aguentava calado enquanto se perdia no meio de tanta tralha que tinham que levar pra prainha. “Paiê”, gritava todos os filhos ao mesmo tempo, enquanto ele ficava de rabo de olho na filha mais velha, se enroscando só de shortinho no namorado com cara de malandro. “Putaquepariu, vou ter que levar esse vagabundo com a gente e ainda deve comer minha filha no meio do mato”. “Anda logo, seu monte, ainda não pegou tudo” – Silvia continuava gritando. Enfim, terminou de colocar tudo no carro e seguiram pro rio. Era domingo.

15h02
Os cinco dias de esforço, remando pelo rio, deixaram os três completamente apagados na mata. Um deles ameaçou acordar, mas apenas se virou. O lugar era perfeito pro descanso. Qualquer lugar seria perfeito, depois de cinco dias como aqueles.

15h08
Primeira vez que foram no rio. Os três, escondidos dos pais, andaram quase uma hora de bicicleta pra nadar. Um deles morrendo de medo que os pais descobrissem. Eles iriam chegar em casa na volta quase na hora em que seus pais chegariam também. Só pensava nisso. Os outros, só pensavam em nadar. Preocupado, nem nadou. Preferiu ficar fumando debaixo da árvore e olhando os garotos nadarem. Morria de inveja dos saltos que eles davam de cima da árvore. Ele tinha medo da draga que ficava lá perto. Dizem que um garoto foi sugado por ela.

15h10
“Ei, o que é isso?”, “Não sei, mas se parece com algum tipo de macaco, sei lá!”, “Por Deus!, fede mais que lobo morto!!!”, “Num tão mortos não, cara! Tão vivos”, “O que a gente faz? Mata logo?”, “Não, não!”, “Oh, cuidado, um deles tá se mexendo”, “Acho melhor a gente esconder no topo das árvores e ficar olhando.”, “Vamos ver o que eles fazem.”, “Qualquer coisa, a gente mata!”, “Vamo logo que não aguento mais essa catinga!”, “Tá!”.

15h25
Duas picapes encostaram perto da prainha. O sol tava foda. Duas garotas de biquíni numa e mais três na hora. Saltaram antes mesmo das picapes pararem. No som dos carros: funk carioca no talo. Elas correram pro rio. Ficaram lá, as três pulando n’água, até que resolveram tirar as blusas e fazer topless. Galera que estava no bar pirou. Os que estava no volante desceram, cada um segurando uma mina pela cintura. Pegaram todas no caminho pro rio. Gostosíssimas. Subiram e foram pro bar comprar cerveja. Na volta, se sentaram debaixo de umas árvores.

16h13
“Ah, que é isso! Cês tão com frescura. Vambora logo pra lá. Hoje é terça-feira e numa hora dessas num tem ninguém lá”, “Cê num vale nada mesmo, hein.”, “Vamo lá, Flávia, te empresto um short e a gente vai nadar um pouco”, “Éh, eu ainda compro umas cervas pra levar, lá pelas 6 horas a gente volta. Horário de verão, vai tá cedo ainda.”, “Beleza, pega o short lá.”

18h20
Eles tinham passado o dia na beira do rio. Levaram carne e cervejas. Um deles levou um beckzinho. Cerva acabou, a carne tbem. Ainda curtiam a doideira do beck. Ficavam lá, só curtindo o barulho da água nas pedras. O lugar já tava quase vazio. Um deles, pra quebrar o silêncio: “cara, dizem que já morreu muita gente aqui”, “é, já ouvi falar umas paradas assim mesmo”, “dia desses eu tava conversando com um tiozinho que mora aqui perto. Ele disse que foram 27, até hoje.”, “Caralho, cara. Gente pra caralho.”, “vamo vazar daqui que essa parada me deu foi medo.”, “é, vamo”.

Leave a comment