paixões invisíveis.

Pra ler ouvindo: “Don’t Leave the Light On Baby – Belle & Sebastian.”

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A Paula era linda. Linda, linda, linda. Eu nem acreditava que finalmente tinha conseguido entrar no quarto dela. E ainda, com ELA nele. Eram umas 8 e meia, quase 9. Os pais tavam assistindo novela e ela tava lá, deitada, ouvindo música. Era tudo meio inacreditável, parecia sonho, sei lá, não dá pra descrever o que eu tava sentindo.

Fui apaixonado por ela durante todo o segundo grau. Nunca tive coragem de me declarar. Aliás, eu nunca tive coragem de falar com ninguém. Ainda mais me declarar assim. Melhor, acho que ninguém nunca teve coragem de falar comigo. Acho que nem eu teria, sei lá. Ela não era do tipo popular. Era do tipo intelectual, e linda, linda, linda. Só isso já criava uma espécie de campo de força ao redor dela. Escrevia uns textos e uns versos muito legais pro jornal da escola. Eu sempre lia e guardava todos. Ela falava de amor, citava uns autores bacanas – uns até que eu já conhecia. Enfim, eu adorava. Me indentificava, sabe?

Eu tinha dois amigos nessa época. Um dia um deles me falou que ela não era isso tudo. O outro concordou. Terminei o ano sem amigos. Mas eu nem ligava.

Nunca nos falamos. Um dia, dentro da biblioteca ela me perguntou se eu sabia onde ficava um livro. “Admirável Mundo Novo”, do Huxley. Eu disse que sim. Fui, peguei e entreguei pra ela. Nem conseguia olhar em seu rosto direito, de tão nervoso que eu ficava na presença dela. Essa foi a única vez que nos falamos. Ela agradeceu. Acho que sorriu. Eu nem pra aproveitar pra puxar conversa. Li o livro três vezes. Mas, na hora, emudecia.

No quarto, durante algum tempo eu fiquei num canto. Um cantinho que eu descobri que seria o local perfeito pra ficar. Tinha um baú pequeno com alguns bichos de pelúcia em cima. Tipo um baú pra guardar sapatos ou coisa do gênero. De repente eu percebi: CARALHO, ELA TINHA UM PÔSTER DO WEEZER NA PAREDE DO QUARTO!!! Do lado um rack com uma tevê e alguns livros. O computador ficava do outro lado do quarto. Ainda tava ligado. Ela baixou algumas músicas pro player e voltou pra cama. Percebi durante o tempo que eu tava lá, que ela hora nenhuma tinha passado por aquele canto. Era perfeito pra mim.

Tudo bem que eu era invisível ali naquele momento, mas, eu tinha um certo receio, sei lá. É estranho pra caralho esse lance de não poder ser visto. Eu fiquei ali, no meu canto, sentado, só observando. Aquilo pra mim já era mais que o suficiente.

Ela tava com um ar meio triste. Deitada, ouvindo música. Vestida com uma camiseta preta, quase colada, quase, e só de calcinha. Uma daquelas de algodão, branca e com uns dinossaurinhos. Deu pra ver uma hora que ela se virou e ficou meio de conchinha. A cama dela era grandona, mas ela ocupava só um canto. Parecia que tava chorando. Ah, como eu queria poder chegar perto dela e conversar. Sentei do lado da cama e fiquei olhando pro rosto dela.

Por que será que ela tava chorando? Será que tinha brigado com o namorado? Peraê, eu nunca vi ela com ninguém na escola.

De repente ela levantou. Eu tomei um susto e fiquei gelado. Ela levantou, foi no banheiro, voltou e apagou a luz, voltou pra cama e aumentou o som no player. Pouco tempo depois me assustei de novo. O pai dela entrou no quarto. Tentou dizer algo pra consolar, mas ela não tava afim de papo. Ele entendeu e saiu.

Apesar da escuridão, ainda deu pra ver o corpo dela, deitado. Agora ela tinha se virado. Ficou olhando pro teto. As luzes da rua clareavam parte do quarto. Uma faixa diagonal de luz incidia sobre o corpo dela.

Fiquei de cara quando percebi o que ela tava ouvindo. Era “Dont Leave the Light on Baby”, do Belle & Sebastian. CA-RA-LHO!. Eu sou muito burro. Devia ter imaginado que ela tinha gostos musicais similares aos meus. Eu tinha a discografia da banda, outro motivo de aproximação que não aproveitei. E ela adorava Belle. Pelo menos eu acho que sim, ela tinha ouvido a mesma música 20 vezes, só no tempo em que eu estava lá. Que burro, que burro! Nunca vou me perdoar. Nunca!

Ficamos ali por horas. Eu sentado, observando. Ela, deitada, ouvindo e chorando. Deus, eu daria tudo pra saber o porquê e poder ajudá-la, mas não podia, não mais. Foi aí que eu decidi sair. Eu voltaria outra hora. Voltar não seria problema. Esse lance de ser invisível tem suas vantagens. Eu não podia interagir, mas pelo menos podia ir a qualquer lugar a hora que quisesse.

Ela tava dormindo quando eu saí. De repente eu ouvi um barulho. Gelei pela segunda vez. Ainda não tava acostumado com esse negócio. Eu sempre me assustava. Ouvi alguém me chamando. Achei estranho. Olhei pra trás, era a Paula, que me olhou bem no fundo dos olhos e disse: “Porque você fez isso, seu idiota?!! Eu sempre fui apaixonada por você! Sempre!”

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