memórias #2 | o papa é pop, conversas com deus e renúncias amorosas | 1990

Este post faz parte de uma série chamada memórias. Pra entender, clique aqui. Para ler todos, aqui.

Esse texto era pra tratar de 1992. Prometi isso no último. 90/91 não tiveram um apelo musical considerável pra mim. Eu ainda habitava territórios perigosos. Ou melhor, os territórios perigosos ainda me sugavam, como um buraco negro que engole tudo ao seu redor. Mas, eu escapei.

Rá!

Enfim, achei estranho pular dois anos numa série como essa. Resolvi preencher essa lacuna na linha do tempo. Escarafunchar algumas coisas relacionadas ao período que ainda estão arquivadas aqui.

Eram meus nove anos. Eu ainda morava na mesma casinha, no centro, de favor. A mudança mais drástica que ocorreu nesse período foi a transição da SEGUNDA para a TERCEIRA série. Isso, pra mim, era algo extraordinário. As reminiscências musicais desta época devem ser as mesmas de anos anteriores. Eu ainda me espelhava em meu irmão, com os lances de rebeldia e pau no cu do mundo. Lances ainda muito RESTRITOS pra mim. Afinal, eu era um garoto de nove anos.

O fragmento “era um garoto”, também fez parte dessa época, na clássica canção de Humberto Gessinger, cuja banda eu NUNCA gostei. Esse NUNCA nasceu no exato momento em que pude decidir o que ouvir, quando e como. Nesse período eu ainda não tinha poderes como esse.

Música que teve uma contribuição importantíssima para minha vida. Tive contato pela primeira vez com Beatles e Rolling Stones. Tudo bem que foi só uma apresentação. Nem rolou flerte. Foram só os nomes. Valeu a pena.

Referências são tudo – e o ratatatatata, ratatatatata da música, tbem. Além dos nomes das bandas, que davam um ar rocker pra música, haviam ainda “mil garotas afim”, “help, lady jane, yesterday”. Essas coisas que me faziam querer cantar.

Além de “Era um garoto”, rolava nas rádios nova-serranenses “O papa é pop”. Sim, eu cantava essas músicas e me esbaldava. Essa

Detalhe da letra que com certeza foi FUNDAMENTAL para que eu me tornasse adepto à modinha:


O Papa levou um tiro à queima-roupa
O Pop não poupa ninguém

Eu achei legal isso do Papa levar um tiro a queima-roupa – termo que fui descobrir o significado muito tempo depois. Legal por ser um lance meio trangressivo. Eu não sabia o que era transgressivo. Mas na época eu sentia que tinha uma ligação direta com a rebeldia sem causa do rock, essas coisas.

Nesse mesmo ano, em sala de aula – lembre-se: TERCEIRA série -, uma das professoras explicou pros alunos qual era a função do Papa no mundo. A pauta talvez, influenciada pela fama ocasional do Papa nas rádios.

Eu fiquei meio chocado quando ela disse que o Papa tinha CONTATO DIRETO com Deus. Imaginava o Papa no lugar onde os Papas ficam – eu não sabia onde era e criava mentalmente um ambiente qualquer – olhando e conversando com aquela luz. Foi o que a professora disse na época. Que ele olhava e conversava com a luz. Eu tentava imaginar o que a luz dizia.

Outra música que foi presente nessa época, mas sem contribuições para minha vida adulta foi “Hunting-High and Low”, do A-ha. Não lembro se 90 ou 91. Me lembro dela pelas manhãs, na rádio. E a imagem que tenho quando ouço é a de um trilho de cortina. Deve ter alguma explicação. Claro que tem. Eu só queria expor isso. Ok.

Esse foi um ano bem religioso. Eu aprendi o “Pai Nosso” e tinha em casa um livro de histórias ilustradas da bíblia. As PARÁBOLAS vinham acompanhadas de desenhos bem legais, em cores. O livro, com capa dura, dourada, era meu livro de cabeceira. Um dos primeiros. Eu curtia muito as histórias de Caim e Abel, David e Golias, Jonas, e uma lá onde Abraão sacrifica alguém pra Deus.

Foi o segundo livro de histórias ilustradas que tive contato na vida. O primeiro nem foi um livro, mas um exemplar de X-Men. Comprado numa banca de revistas na Pça. Tito Pinto, no local onde hoje é o Posto São Paulo. Lembro da Ororo, com olhos brancos, pele morena e coxas bem torneadas. Lembro do Wolverine e as garras de adamantium e das sentinelas gigantes.

Havia um outro livro. Não lembro o título. Era uma dessas edições promocionais que vinham com alguma revista. A capa era vermelho-escuro e a história era sobre o mar. Era algo sobre história. Digo isso por causa do termo CAPITÃO-MOR. Única palavra que me lembro do livro.

Esse também foi o ano em que me formei em religião. Pra não ficar fora do círculo social, tinha que fazer primeira-comunhão, mas antes, precisei me batizar. Foi tudo no mesmo ano. Exigências de Deus.

Ainda em 90, entre Papas que levam tiros e conversam com luzes, Beatles, Rolling Stones, X-Men e histórias bíblicas, tive algums desafios nível GOD, com TROLLS na escola. Nada de “passa sua merenda”, “passa o dinheiro do lanche”, ou “seu estojo completo é foda, mas agora ele é MEU estojo completo!”, não, nada disso. Mas sim uma das primeiras renúncias emocionais da minha vida, em prol, claro, da minha sobrevivência.

“Fiquei sabendo que você tá gostando dela, é verdade?”
“É sim.” – esse era eu.
“Seguinte: eu gosto dela. Dois não podem gostar da mesma menina.”
“…” – eu ia falar o quê?
“Você é um cara legal. Não quero bater em você. Promete pra mim que não vai mais gostar dela?”
“Prometo.”
“Fechado então! Não vai gostar mais mesmo?”
“Não, não. Nem gosto mais dela.”

Claro que os diálogos não foram exatamente assim. E outros detalhes como empurrões e lágrimas nos olhos foram suprimidos do texto. Mas eles existiram.

Eu tive uma professora chamada FELÍCIA. Lembro que ri muito quando soube o nome dela. E a galera da minha sala era bem punk. Tinha um cara lá que ia pro final da sala, corria e pulava com o peito no chão. Escorregava até o fim. Tipo comemoração de jogador de futebol. MUCHO LOCO.

Um detalhe final sobre 1990. Eu comprava YAKULT todos os dias. Escondido do meu pai, que me dava um esporro sempre que ia pagar a conta. Mas os lactobacilos vivos eram mais importantes. E eu aproveita pra brincar na praça da matriz (ainda em construção) no caminho.

Nada muito musicalmente importante, mas, esse foi só pra preencher.

O próximo, 91, foi um ano de experiências musicais mais diversificadas. E outras experiências também.

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