memórias #3 | mudanças, mulheres, bebidas e a incrível coleção de fitas cassete do meu irmão | 1991

Este post faz parte de uma série chamada memórias. Pra entender, clique aqui. Para ler todos, aqui.

direto do túnel do tempo

Esta foto tem um detalhe que acho que ninguém, além de mim, percebe. A camiseta tem uma estampa escrita SKATE. Resultado das influências skatísticas que tive anos anteriores, com as revistas e decalques de caveiras. Tudo bem que a estampa dessa camiseta era coisa de criança, com um boneco de palito se equilibrando em outros palitos, no que supostamente seria um skate.

Eu ADORAVA essa camisa.

Como no ano anterior, as influências musicais não foram consideráveis. Mas tive uns primeiros contatos que fizeram MUY bem pra mim. Apresentações similares aos Beatles e Rolling Stones, mas agora além dos nomes, eu também pude ouvir.

Não morávamos mais de favor. MUDANÇA foi a palavra de ordem nesse ano. Mudamos pra casa própria, no bairro Planalto. Eu fui pra quarta série. Tinha de pegar ônibus todas as manhãs para a longa jornada ao centro da cidade. Adorava esse ônibus. Antigões e com cinzeiros de metal em forma de círculo nos braços da poltrona. Tinha um pequeno pino pra você abrir, e geralmente eles estava cheios de tocos e cinzas.

Ainda no ônibus, tinham umas três minas, que pra idade que tínhamos eram bem gostosas. Galera ficava passando a mão nelas a viagem toda. Sempre na volta. Eu lembro do sol das onze batendo na bunda de uma delas. IMAGEM CLARA.

Tínhamos um colega no ônibus chamado JURANDIR. Eu não sei porque, mas apelidaram ele de JUREMA. Acho que por causa das ervilhas. Eu sempre chamava ele de ERVILHAS JUREMA.

A música que reinava na época era “É o Amor”, e é a lembrança musical desse ambiente. Uma garota na sala curtia pacas e ficava escrevendo a letra no caderno. Ela se sentava na minha frente, na fila de carteiras que ficavam coladas à parede, ou seja, ela se sentava do meu lado. Ela era feia e eu nem ligava. Curtia uma outra, que se sentava lá do outro lado.

Duas lembranças desse ano escolar foram EXTRAORDINÁRIAS pra mim: um FIGHT na sala, com direito a soco no olho e corpos no chão – a primeira que eu presenciei – e um esporro da supervisora, pela bagunça dos alunos: “VOCÊS NÃO TEM VERGONHA? VOCÊS SÃO UNS SPRITO (sic) DE PORCO”. SPRITO DE PORCO!

Fora do ambiente escolar, eu habitava mais dois ambientes bem distintos. As festas que me irmão promovia em casa e as aventuras em lagoas e campos de futebol no meu bairro. Sim, eu jogava futebol e aprendi a nadar comendo uma PIABA viva. Depois de degustar, pulei no poço e… ainda estou aqui.

As festas no nosso novo palácio eram regadas por vodka, cerveja e rock n roll. Meu irmão era cheio dos amigos de BH. Eles tinham umas conversas meio sem sentido. Talvez tivessem sentido, mas não pra mim. Um desses amigos contou uma história engraçada sobre a mãe. Disse que deixou um copo de vinho na geladeira e ela, sem saber que era dele, bebeu. Ele chegou em casa e ela tava parada, olhos arregalados e dizendo que a tevê estava derretendo.

Eu via eles rindo, percebia que havia alguma coisa além. Mas, sempre fiquei calado. Pouco tempo depois descobri que era chá de cogumelo. Eu investigava essas coisas. Sério. Li uma coleção completa sobre drogas ilícitas na biblioteca municipal. Maconha, cocaína, LSD, chás alucinógenos e ANFETAMINAS. Eu adorei essa palavra: ANFETAMINAS.

Numa outra dessas tantas reuniões etílicas na minha casa, conheci THE SMITHS. Esse merece vídeo

Tinham umas 10 pessoas (umas seis mulheres) no quarto. A fita rolava num sonzinho que tínhamos. Era vermelho e similar a este aqui. Foi o primeiro toca-alguma-coisa que tivemos em casa. Meu irmão falava que existia um lance chamado CD e sonhava em ter um. Eu nunca tinha visto um CD.

Eu ficava meio avulso. Queria participar, mas não tinha idade pra isso. Só observava pra ter referência. pelo menos eu acho que era isso. Mas eu sempre curtia o ambiente. Mulheres, música, cigarros, bebida. Era uma atmosfera bem rock n roll.

Meu imão era o maior comedor da época. Ele deve ter tido umas cinco mulheres nesse período, acho. Uma delas, a mais frequente, vivia me perguntando se eu já tinha cabelo no saco. Disse que quando eu tivesse eles iam me levar pra sair com eles. Tipo, iniciação, saca? Eu tinha que estar pronto. Eu achava ela muito gostosa, e ela lá, pedindo pra ver meu saco. Depois dessa proposta dela, eu ficava acompanhando o crescimento dos meus pelos pubianos diariamente, torcendo pra que crescessem logo.

Além dessas abordagens quase sexuais dessa mina, rolou um outro esquema massa. Um dia eles foram pruma cachoeira aqui perto de casa. Na época ainda era cachoeira. Meu irmão, um amigo e mais duas minas. Eu fui tbem e ficava no mato observando o cara meter a mão na mina dele. Minha primeira experiência voyeurística.

Eu pirava na coleção de fitas cassete do meu irmão. Sonhava em um dia ter uma coleção como a dele. Ele tinha fantásticas SEIS fitas cassete. Lembro de algumas. RAMONES (coleta), SEPULTURA (Arise), GUNS N ROSES (Appetit for destruction), PINK FLOYD (The Delicate Sound of Thunder) e mais duas que não lembro.

Eram SEIS, certeza.

Foi minha primeira audição de Pink Floyd na vida. CLARO que eu tinha ouvido THE WALL antes disso. Mas eu não sabia que era Pink Floyd. Então, deixo como primeira audição, essa. E eu nunca gostei muito de ANOTHER BRICK IN THE WALL. Continuo não gostando.

A que eu mais curtia era SHINE ON YOU CRAZY DIAMOND

Encontrei a fita na web, acredita? Aqui ó

Paralelo às audições, eles ficavam teorizando sobre a origem do nome. Um deles uma vez sugeriu que seria “FLUÍDO ROSA”. Por muitos anos eu também achei que era isso.

No nosso quarto, ainda sem reboco, sem porta e sem piso, meu irmão pixou nas paredes os símbolos de ANARQUIA e a palavra CRAZY, com um spray verde metálico. Meu pai xingou até, mas eu tava do lado do meu irmão.

Ele comprou ainda alguns vinis. Os primeiros dele. Não tínhamos como tocar os vinis, mas mesmo assim ele comprou. STEVE VAI, JOE SATRIANI, RUSH, SIOUXIE AND THE BANSHEES são os que eu lembro. Fomos ouvir depois de um bom tempo.

Como falei, esse ano foi uma espécie de iniciação pra mim. Um monte de bandas e um monte de músicas. Um monte pra época. Hoje, humpf. Mas foram audições positivas pra mim. Principalmente por não se tratar de bandas nacionais. Comecei a curtir o som que vem de lá.

Em 1992 que a parada começou a fluir legal. Um vendedor passou na escola onde eu estudava – QUINTA série – e nos vendeu um álbum de figurinhas. Não de futebol e sim de músicos. Aí já viu.

Mas isso fica pro próximo.

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