Demorei uns 50 anos para criar coragem e ler “O Apanhador no Campo de Centeio” do Salinger. Todo mundo que eu conhecia já tinha lido. Na verdade, quase todo mundo. Eu tenho uma porção de amigos que não leem e nem fazem questão disso. Os que leem, ficavam falando pra eu ler a droga do livro e tudo. Falavam daquela história do cara que matou o outro porque leu o livro. Eu nem ligava. Tem um certo charme em não ler determinados autores e fazer de conta que não tá nem aí. É um negócio meio babaca, eu sei, mas acontece, dependendo da idade que você tem. A gente sempre é meio babaca em algum momento da vida. Tem gente que até se esforça pra continuar assim. Sério. Muitos conseguem. Eu conheço um monte de gente assim. Aí o Salinger morreu. Eu esperei o cara morrer pra ler a droga do livro dele. Mentira. Não esperei nada. E eu nem sabia que ele ainda era vivo quando me recusava a ler ele. E também topei com o livro um bocado de vezes, resolvia comprar e desistia ali mesmo, na livraria. Eu não queria mesmo ler. Aí no dia que ele morreu eu resolvi comprar e ler. Isso não foi nenhuma espécie de homenagem nem nada. O cara morre e você vai lá ler o livro dele. Não, não é isso. Eu não sei o que é. Da mesma forma que eu também nem sabia porque o nome do livro era “O Apanhador no Campo de Centeio” – que é um nome legal pra caramba. Só fui lá e comprei, e li, e gostei. Aí eu tbem descobri o porquê do nome do livro.