Era 97, acho. 96, talvez? Não, não, era 97 mesmo. Sexta série. Isso. Não! Se era 97 era a sétima. Ok. Sétima série, numa sexta à noite. Eu e Ronaldo. Estudávamos juntos. Não na mesma sala. Ele era de outra sétima, mas nesta sexta matamos aula tomar umas cervejas. Estudar à noite aos dezesseis tem dessas coisas. Ninguém por perto, cara de quem já é maior de idade, aí já viu. Bora tomar uma hoje? Bora. Fomos pra Pça da Igreja Matriz no centro. O movimento na praça tava fraco, era cedo, umas 7 da noite, e resolvenos ficar dentro do bar. Beber no balcão. Eu sempre achei legal beber em balcão. Até hoje eu gosto de balcões de bares. Falamos sobre diversos assuntos. O Ronaldo, religioso que era, tentava me convencer que a felicidade dependia da crença em Deus. Eu disparei diversos argumentos contrários – como se alguém com 16 anos tem argumentos suficientes prum assunto desses. Debatemos durante um bom tempo. Depois de várias cervejas, enquanto ele ainda tentava me convencer, eu, sem ele ainda saber porque, comecei a rir descontroladamente. Ria feito um louco. Ri muito. Gargalhei. O pessoal do bar até estranhou. Ele fechou a cara, virou o copo. Pensou, talvez, que eu estivesse rindo da opiniões dele. Não era isso. Enquanto eu ainda recuperava o fôlego pra tentar contar o motivo do riso, ele encheu novamente o copo dele e virou. Encheu o meu também. Dei um baita gole e perguntei se ele tinha visto qual era a marca da camisa dele? Ele estranhou, olhou pra etiqueta e também começou a rir. DON ALGODON – ele falou de uma forma bizarra, por causa do riso. Eu repeti: DON ALGODON! Pois é, cara: DON AL-GO-DON!
Rimos muito. Muito. Bebemos muitas outras cervejas e não falamos mais de Deus. Só DON ALGODON.
DON ALGODON.
E só.