um recado, uma trova e um desabafo.

Desorganizar, limpar e reorganizar estantes de livros é uma tarefa que me agrada muito. Rever os lidos, reler alguns trechos, separá-los de acordo com os mais variados parâmetros, encontrar anotações, marcações de página e, ainda, pedaços de papel, das mais variadas espécies, que fizeram as vezes de marcador durante a leitura. Esses resquícios fazem determinado sentido, quando o livro teve como único dono, você, que o comprou durante um passeio por uma livraria qualquer, por acaso; pela internet, para uma pesquisa ou estudo; ganhou de presente, talvez. Neste caso, só existe uma história, daquele exemplar com você. O mesmo não acontece quando você adquire um livro em um sebo, ou ele passa por várias e várias estantes até chegar a sua.

Durante minha última faxina, encontrei e separei um Programa de Sociologia. Livro para docentes. A edição é de 1942. Não lembro se comprei num sebo ou se peguei emprestado com algum amigo. Enfim, depois de tudo limpo e organizado, fui folhear o livro e encontrei algumas pérolas perdidas. Primeiro, um bilhete entre amigas, algumas páginas depois, uma trovinha política, e mais algumas páginas, um desabafo de um mestre, num conflito ideológico com um aluno.

As imagens seguem abaixo e logo depois do bilhete e a transcrição, deixo algumas perguntas, que me fiz e faço quando encontro coisas assim:

Eliza,

Bonjour,

Dea telefonou, quem atendeu foi o Seu José, ela disse que a prova (não sei se é de psicologia, porque ele não entendeu, mas você deve saber qual é) será feita as 11 horas.

Disse que se você não for, perderá a prova. Desculpe-me a letra, porque eu vim procurar o portador deste, e como aqui não se tem mesa, estou escrevendo no colo.

Felicidades,

Neuza.

Quem é Eliza França? – (sobrenome na capa do livro). E sua amiga Neuza? Eliza fez a prova, ou se atrasou e perdeu? E Dea (Andréa?), é tbem amiga, ou professora? Eliza viu o bilhete. Porque o guardou em seu livro durante todo esse tempo? Esse “bonjour” no bilhete, era uma intimidade, uma particularidade entre as duas, ou era algo comum entre alunos deste curso, ou desta época? O curso era Sociologia? Se sim, onde, e em qual universidade/faculdade? E o Seu José? É pai, amigo ou colega de trabalho de alguma das meninas? A prova era mesmo de psicologia? – Seu José não entendeu direito. E o recorte com o artigo do professor Altivo, ele era também professor destas duas amigas? Vê-se que há uma ligação entre Eliza e o ex-aluno citado pelo professor Altivo, Rui França. Este era irmão, pai, tio, primo? Porque ela guardou este recorte? Para entregar a Rui? Qual foi realmente o conflito entre ex-aluno e mestre? A trovinha política nos dá uma pista de qual seria o ano em que tudo isso aconteceu: 1962. E quem é o tal amigo, que colaborou com esta trova? Rui foi eleito? E Totonho?

Perguntas, perguntas, perguntas….

UPDATE:
E vejam só, com a ajuda do @pedroflora descobri no site da Câmara de Divinópolis que o Totonho se deu bem com a trovinha. Já o Rui não conseguiu, quem ganhou a eleição foi Sebastião Gomes Guimarães.

5 comments

  1. Acho que errei, Neuza era governanta da casa, e seu Zé era o motorista, a Dea ligou para avisar da prova, naquela época pouca gente tinha telefone e quem tinha também tinha condições de ter governanta e motorista… ou será que a Neuza era ex-babá de Eliza?
    :)

    boa noite moço
    9-12-24

  2. Gabriel Andrade

    Faz sentido isso que vc disse. Talvez Neuza seja amiga de outra classe, talvez do mesmo curso, ou não. Mas e Seu José, como assim trabalhar na casa? Porteiro, motorista? :) Perguntas, perguntas…

  3. Gabriel Andrade

    Velho, a nossa geração ainda pensa assim, ainda bem.

  4. Faças suas compras, tudo para o conforto de seu lar e ainda ganha um talão que dá 1 milhão.

    Mobiliadora Real LTDA.

    Antes, ir lutar em batalhas era buscar conhecimentos e transmití-los aos mais jovens. Os mais velhos diziam: _Não faça desse jeito, pois isto gera “aquilo”.
    As pessoas aprendiam e tinham respeito – vamos dizer – pelos mais experientes. Sabiam que ali estava a fonte dos conhecimentos e de suas futuras profissões.
    Já na primeira guerra mundial, com novas tecnologias de artilharias e invenções de bombas, os guerrilheiros eram destroçados. Chegavam em casa sem membros e nem sabiam o que lhes tinham ocorrido. Começava aí a ingratidão dos mestres.
    Hoje tudo é muito simples. Vai elogiar um aluno para o genitor, mesmo não sendo professor e preste atenção na expressão de “blasé”.

  5. Eliza ( dona do livro) era estudante em Divinópolis, e Neuza era amiga dela (ou amiga da família), mas não amiga de escola, caso contrário saberia da prova mesmo sem a Dea ter avisado.

    A Eliza tava pensando em faltar na escola, aí a Dea ligou para avisar que teria prova. Dea provavelmente era amiga da escola (acho que dificilmente uma professora liga para as alunas para avisar que haverá prova), no dia que a professora falou da prova a Dea estava na sala e a Eliza não.

    O seu Zé era o moço que trabalhava na casa da Eliza, se fosse o pai da Eliza, Neuza diria que “seu pai” atendeu… e talvez o seu Zé tivesse alguma dificuldade para escrever e pediu para Eliza fazer isso por ele.

    ah e o BONJOUR :) era particularidade entre as duas :)

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