Daqui.
Tou publicando pq, talvez, vocês, como eu, gostem tbem.
:)
Entrevista cedida à PHotoEspaña.
“Quando eu comecei a fotografar, nunca havia imaginado que as minhas fotos viajariam o mundo”
Desde 1960, Malick Sidibé (Mali, 1936) tem fotografado em seu estúdio, localizado em Bamako, capital do Mali, no noroeste da África. Suas imagens documentam, com um olhar puro, a cultura popular de sua cidade. Como resultado, Sidibé conseguiu produzir imagens que se distanciam da visão ocidental, geralmente preconceituosa com relação à outras culturas.

Malick Sidibé esperou por nós no Olivia Arauna Gallery, vestindo uma longa túnica verde com desenhos abstratos brancos. Quando chegamos, nos cumprimentou com um largo sorriso, e com um olhar, que sorria também.
Imediatamente sua presença preencheu todo o lugar, nos conquistando. Malick é o tipo de pessoa que não nos deixa indiferente. Fala com entusiasmo desde o começo, lembrando a cada instante, detalhes em suas fotografias, mesmo que tenham se passado 50 anos, desde então.
Às vezes, parece distante, como se de repente estivesse de volta ao seu estúdio em Bamako. Fala com os olhos fechados, lembrando-se de quando retratava a história do seu país, o que o tornou um dos mais influentes fotógrafos da época.
PHotoEspaña Hoje você é um fotógrafo renomado e suas imagens têm viajado por todo o mundo. Como você começou na fotografia?
Malick Sidibé – Eu estudei em uma escola de artes, por que eu gostava de desenhar. Em seguida, comecei a fotografar trabalhando com um fotógrafo francês em 1957. Na época, eu era o mais jovem fotógrafo na cidade.
Felizmente, eu era o único na cidade que tinha um flash, então comecei a tirar fotos de festas à noite. Eu ficava no estúdio até a meia-noite, ou uma da manhã até sair para fotografar as festas. Eu voltava ao estúdio, revelava os filmes e nas segundas e terças-feiras eu pendurava as fotos em minha loja e as pessoas iam até lá e escolhiam quais elas haviam gostado mais.
Meu estúdio sempre foi um local muito animado, por que todos os jovens sempre vinham ver as fotos das festas. Eu conheci todos, e hoje ainda consigo me lembrar dos rostos e nomes da maioria deles.

PHE – O Mali se tornou um país independente na década de 1960. Como a nova situação política influenciou o seu trabalho?
MS – Não foi tanto a nossa independência, e sim a música ocidental que mudou muitas coisas durante esse período. A música realmente revolucionou, porque depois de 1957 o rock n roll, hula-hoop, swing, etc. chegaram ao país. A música foi uma verdadeira revolução no Mali.

PHE – Paralelo a fotografia de festas, você tem uma grande quantidade de retratos em estúdio…
MS – Eu comecei a fotografar os jovens em festas depois de 1957, e então fui para os retratos. A fotografia tem uma grande tradição no Mali. Para o povo do meu país, é importante ter fotos de si mesmo, para poder mostrar a família, aos amigos… é um tipo de atitude social.
A partir de 1960, eu comecei a fotografar em meu próprio estúdio. Todos iam lá, porque tirar um retrato, na época, era muito barato. Mais do que qualquer um, os jovens adoravam tirar fotos com suas melhores roupas, brincos, seus penteados, mostrando seus melhores relógios, braceletes. Todo mundo gosta de ficar bonito nas fotos.
Havia pessoas que queriam ter seus próprios retratos para poder enviar aos amigos. Sempre calçando sapatos novos, vestindo uma gravata… Havia também pessoas que queriam tirar fotos com o rebanho de gado, motocicletas… para mostrar suas posses para as outras pessoas, para mostrar às outras pessoas como eles viviam.

PHE – Como você avalia a evolução do seu trabalho, desde quando começou até agora?
MS – Quando eu comecei a fotografar, eu nunca imaginei que as minhas fotos viajariam o mundo depois de apenas alguns anos. Eu fotografo para o meu povo, para o meu país… Eu nunca poderia imaginar que isso iria acontecer. Minhas fotografias são uma espécie de guia turístico, por que é isso o que você verá no Mali, se viajar para lá. Fotografia é realidade: elas nunca mentem, e são importantes para mim. Eu tenho todos os meus filmes revelados e catalogados em meu estúdio.
PHE – Os meios para se fotografar mudaram muito recentemente. No entanto, você continua fiel à fotografia analógica…
MS – Eu entendo que a fotografia digital é mais simples e muito mais barata, mas isso não é fotografia para mim. Na fotografia analógica, você tem de focar a imagem, ir ao laboratório, revelar e trabalhar nisso. A fotografia analógica não pode te enganar, já que ela mostra a realidade. No digital, você pode manipular as imagens.
Por exemplo, com a fotografia analógica, você fotografa um cão, e então você pode ver como o cão estava abanando seu rabo… Tudo isso é realidade.
PHE – Na sua longa carreira como fotógrafo, muitas das suas imagens fizeram história, transformando-se em verdadeiros ícones de uma época importante em seu país…
MS – Eu estou muito satisfeito com a minha vida profissional. É difícil escolher um bom momento. Eu tenho muitos negativos, e há muitas imagens que eu gosto um pouco. Por exemplo, os retratos de crianças pequenas, aquelas em que elas estão sorrindo. Elas me dão uma grande satisfação. Esta foto com o casal dançando é uma das que as pessoas mais gostam, e é também a mais conhecida. É chamada de “Christmas Eve” (1963) e nem é uma das minhas preferidas.

Em uma das minhas favoritas, é a de um garoto muito elegante dançando com a filha do Primeiro Ministro do Mali. Hoje ela é muçulmana e usa véu. Se ela estivesse aqui e visse a foto, tenho certeza de que ela diria “Esta não sou eu”.
Eu me lembro do nome da maioria das pessoas que aparecem em minhas fotografias. Se eu não consigo me lembrar do nome, eu me lembro dos seus pais, o que eles estão fazendo agora, se eles têm filhos… Eu também gosto da fotografia de um garoto nigeriano, que era designer. Nessa foto, o garoto abre os seus braços e diz: “A vida é maravilhosa”.

PHE – O seu estúdio no Mali ainda está ativo até hoje. Você ainda fotografa lá?
MS – Hoje, estrangeiros – a maioria europeus – são os únicos que vêm ao meu estúdio me encontrar, por serem pessoas que conhecem a história da fotografia. Eles vão lá para terem seus retratos feitos por mim.
Algo curioso e extraordinário é como agora todos no Mali conhecem meu estúdio. Crianças, que normalmente chamam os adultos de “tonton” or “dad”, me chamam pelo nome, porque nomes são a coisa mais importante artistas. Há também mulheres do campo que batizam seus filhos de Malick, e isso me enche de orgulho. Eu imagino que há umas quatro ou cinco pessoas com o meu nome.
PHE – Como a vida no Mali mudou, a partir das fotografias que vimos na exposição de hoje?
MS – O país tem mudado muito desde 1960. Agora as pessoas preferem se vestir com roupas do Mali, pois as indústrias de algodão são muito fortes e importantes. Antes, preferiam roupas européias, mas agora voltaram a se vestir de maneira tradicional. Os jovens ainda preferem roupas ocidentais. São os jovens que mudam o mundo, não os velhos.
Nos anos 60, as garotas gostavam de sair para dançar. Elas colocavam alguma coisa na água dos seus pais para que eles dormissem, e não vissem quando elas saiam de casa. As mães, cúmplices, ficavam à espera para abrir a porta quando elas voltavam pra casa pela manhã. Quando as garotas terminavam seus estudos, os pais eram obrigados a levá-las a uma festa. Era assim que os mais velhos se convenciam que dançar não era algo ruim ou horrível.
PHE – Parece impossível que em uma carreira tão longa, você não tenha tido momentos difíceis…
MS – Eu nunca tive muitos problemas na minha carreira. As pessoas deixam o meu estúdio quase sempre felizes; embora sempre existam casos onde é mais difícil fotografar, mas sem causar muitos problemas.
Tive alguns problemas com os militares, já que fotografei o golpe. Eu penso que isso foi necessário para retratar o momento. Eu tive medo de perder minha vida, porque eu não era um jornalista, então não estava autorizado a tirar fotos.
Eu ainda tenho esses negativos. Tenho fotos de militares com seus rifles. Eu também fotografei o golpe em 1968, já que eu conhecia soldados por ter prestado meu serviço militar com eles, e eles me chamaram para tirar fotos. Num dado momento o General veio até mim e perguntou: “O que você está fazendo aqui?”, eu disse: “Eu estou tirando fotos”, os outros soldados ficaram com medo e se esconderam. O general ficou realmente zangado e tentou confiscar meu filme. Fui levado até o quartel, mas felizmente eu encontrei um amigo lá e conversamos por um tempo. Fiquei por lá até umas 5 da tarde, o General já havia se esquecido do caso e então eu pude levar meu filme comigo. O rapaz que me prendeu tinha uma bazuca no carro e eu fiquei com um pouco de medo, mas por sorte não tive mais problemas.
PHE – Agora você tem uma exposição individual no Olivia Araúna Gallery, e o seu trabalho faz parte de uma exposição coletiva chamada “The 1970s – Photography and Everyday Life”. Como você se sente?
MS – Eu estou muito feliz de participar desta exposição no Olivia Graúna, e fazer parte desta outra exposição coletiva. Eu não consegui dormir na noite anterior à abertura, mas às vezes tenho alguns bons sonhos. É como se eu conseguisse tocar o céu com os meus dedos. Depois disso, penso que devo continuar trabalhando muito e sempre melhor.
