Publico abaixo a minha humilde participação no Concurso Bolañomania da Cia. das Letras, cujo resultado foi divulgado hoje. Não ganhei o livro, mas fiquei feliz por participar. Gostei do exercício que foi escrever esse texto: pesquisar autor e obra; o limite de dois mil toques; ler, reler e reler, enfim, foi uma experiência bacana. E se não fosse pela ajuda do AM (mestre ninja nesses lances), talvez eu nem tivesse participado. Valeu pela força, camarada!
Pensei em reescrever, mas preferi deixar como está. Talvez faça outro, sobre o livro todo ou sobre um outro conto. Ganhei no fim de semana mais um do Bolaño, “Estrela Distante”, um romance. Quem sabe uma resenha sobre esse? Por enquanto fiquem com esse aí.
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O conto “Putas Assassinas” do livro homônimo de Roberto Bolaño é uma mistura de excitação, violência e mistério neste livro do escritor chileno, lançado em 2008 pela Cia. das Letras. Diferente dos demais, este nos apresenta uma narrativa densa e frenética numa estrutura desencadeadora de sensações semelhantes ao da leitura poética. Repleto de metáforas e simbolismos deixamo-nos levar por um caminho obscuro e ao mesmo tempo sedutor.
Max (excitado por desejos existentes no reino do futuro que nunca chegarão) está sentado, amedrontado, diante da puta (experiente, intensa, inclemente) que lhe desfere sem piedade 12 sermões, intercalados por gestos de afirmação, indecisão ou negação de Max: por que ela o escolheu, seduziu, prendeu e o calou; porque ele não a ouviu antes e o que teria feito se tivesse entendido sua mensagem de amor. Durante a leitura, perguntamo-nos: quem ou o quê é Max, e qual sua relação com esta puta misteriosa que o seduz, prende e agora o tortura, apesar da relação intensa que tiveram? Por que se deixou seduzir e abandonou os seus companheiros? Apesar do que é visível – a puta, o jovem, a relação entre eles, digna de um filme pornô barato – o autor deixa ao longo do texto pistas (o príncipe, a princesa, companheiros, a Gran Avenida, o estádio, o castelo, os poetas John Donne e Ovídio – este, censurado e exilado) que constroem um enigma, cuja saída está na própria vida do autor. Ele retrata um período: o golpe de militar no Chile de Salvador Allende; e faz uma crítica a uma classe: escritores, poetas, companheiros de Bolaño que flertaram com o regime. A puta, esta princesa inclemente, detém poderes equivalentes ao de um governo militar de outrora, utilizados para seduzir e calar os inocentes; que não ouvem ou não querem ouvir. Bolaño se vale da subjetividade poética, aliada a elementos autobiográficos em sua prosa para criptografar uma crítica: o retrato de uma relação doentia não somente entre um jovem e uma puta, mas entre um governo e uma classe.