pra ler


28
Feb 10

not even ganesh?.

probably not.

Daqui, ó.

Comprei essa semana “Deus, um delírio”, do Richard Dawkins. A menina da livraria, muito gentil, me ofereceu um marcador de livro com a seguinte citação: “o Senhor nos consola em todas as nossas tribulações (2 Cor., 1, 4).” Mais interessante ainda é que a livraria é especializada em títulos de auto-ajuda, espíritas e religiosos. Talvez o responsável pelas compras da livraria não tenha sacado muito bem do que se trata esse que comprei.


28
Feb 10

epígrafe.

“Não é o bastante ver que um jardim é bonito sem ter que acreditar também que há fadas nele?”
Douglas Adams (1952-2001)

Epígrafe de “Deus, um delírio”, Richard Dawkins, 2006.


26
Feb 10

because of.

Eram umas seis e meia, mais ou menos, não sei, quando pensei “preciso de poesia”. Não tava pensando na poesia literal, daquelas com rima ou métricas, pra ler, que falem de amor ou das gotas-de-chuva-que-caem-numa-noite-fria-e-escura-e-inundam-a-nossa-alma – essas também cumprem sua função, às vezes, muito bem, mas não era isso -, mas sim de algo que pudesse ser apenas admirado, sem esforço algum, entende? Que instigasse sensações, talvez. Transportasse prum outro universo, mais leve, confortável, lúdico. Que pudesse inspirar, não sei. Não sabia. Deixei pra lá. A gente sempre deixa.

Pouco antes de dormir, seis horas depois, encontrei:

They make a secret place
In their busy lives
And they take me there.

Ouça aqui. A letra, traduzida, aqui.

Ladies and gentlemen, good morning – and hats off for The Master.


21
Feb 10

sangue de bairro.

besouro, moderno, ezequiel, candeeiro, seca preta, labadera, azulão, arvoredo, quina-quina, bananeira, sabonente, catingueira, limoeiro, lamparina, mergulhão, corisco! volta-seca, jararaca, cajarana, viriato, gitirana, moita-brava, meia-noite, zabelê.

quando degolaram minha cabeça, passei mais dois minutos vendo meu corpo tremendo,
quando degolaram minha cabeça, passei mais dois minutos vendo meu corpo tremendo,
e não sabia o que fazer.

morrer, viver, morrer, viver!

minha mãe conta que o avô dela tomou uma CARREIRA do Lampião.


10
Feb 10

there was nothing to fear and nothing to doubt.

I jumped in the river and what did i see?

Black-eyed angels swimming with me
A moon full of stars and astral cars
All the figures i used to see
All my lovers were there with me
All my past and futures
And we all went to heaven in a little row boat

There was nothing to fear and nothing to doubt


9
Feb 10

na garganta.

- Ei, pronde é que você vai, cara!
- Embora, ué! Não tá ouvindo pedirem socorro?
- Claro que tou, por isso mesmo que tou perguntando PRA ONDE É que você vai!
- Ahhhhh, tem dó. Não tem mais nada aqui. Vou procurar quem tá pedindo socorro pra ajudar.
- Tá, então continua.
- Ih, pararam de pedir socorro.
- Não pararam não! Volta lá onde que vc tava.
- Óh, a voz de novo.
- Te falei.
- Cara, não tem mais nada aqui.
- Claro que tem, presta atenção que você encontra.
- Ah, desisto.
- Velho, na garganta! Entra na garganta!
- Tá louco?!
- Vai lá.
- CARALHO. Que doideira!!!!


6
Feb 10

arpejo.

substantivo masculino
Rubrica: música.
acorde em que as notas são tocadas em modulação continuada ou sequente.

v. Weird fishes / Arpeggi


4
Feb 10

paixões invisíveis.

Pra ler ouvindo: “Don’t Leave the Light On Baby – Belle & Sebastian.”

.

A Paula era linda. Linda, linda, linda. Eu nem acreditava que finalmente tinha conseguido entrar no quarto dela. E ainda, com ELA nele. Eram umas 8 e meia, quase 9. Os pais tavam assistindo novela e ela tava lá, deitada, ouvindo música. Era tudo meio inacreditável, parecia sonho, sei lá, não dá pra descrever o que eu tava sentindo.

Fui apaixonado por ela durante todo o segundo grau. Nunca tive coragem de me declarar. Aliás, eu nunca tive coragem de falar com ninguém. Ainda mais me declarar assim. Melhor, acho que ninguém nunca teve coragem de falar comigo. Acho que nem eu teria, sei lá. Ela não era do tipo popular. Era do tipo intelectual, e linda, linda, linda. Só isso já criava uma espécie de campo de força ao redor dela. Escrevia uns textos e uns versos muito legais pro jornal da escola. Eu sempre lia e guardava todos. Ela falava de amor, citava uns autores bacanas – uns até que eu já conhecia. Enfim, eu adorava. Me indentificava, sabe?

Continue reading →


18
Dec 09

Utilidade pública

Eis um excelente GUIA, senhoras e senhores.


28
Nov 09

Expressividade digital

Yes!

Expressividade digital

Disponibilizei meu trabalho de conclusão de curso, num blog paralelo à esse. Pra conferir nossos estudos e análises sobre o comportamento ddo hiperconsumidor, conexões simbólicas e etceteras, clica aqui.

Vai na fé. Vale a pena.

Pra mim, valeu! :)


5
Nov 09

Bom sinal

Hoje na ida pro trabalho rolou uma parada DEVERAS interessante.

Como de PRAXE, pego o BUS para o trabalho as sete e meia da manhã. Hoje, diferentemente dos demais DAYS OF MY LIFE, ele estava abarrotado. Alguns lugares vazios na frente e no corredor.

Prefiro as janelas.

Prossegui com a minha saga em encontrar uma vaga confortável. Pior que vaga de estacionamento, é encontrar vaga em ônibus lotado. Enfim, ao fim do corredor, descobri que aquele era o FIM DO CORREDOR.

Havia, então, um espaço entre uma jovem senhora, seu pimpolho e uma moça gordinha. A mocinha (mistura de moça com gordinha, neste contexto) lia um livro espírita ou similar. Quando estacionei ao seu lado, ela guardou sua espiritualidade na bolsa.

(Havia mais um espaço. Na verdade eram CINCO lugares, três pessoas e um garoto, que, muito sapeca, ocupava DOIS deles com seu imenso CHASSI DE GRILO.)

Me senti ACANHADO, um pouco pela ausência de espaço, um pouco pelo fato que EU seria um incômodo.

Eu acabava de matar uma GUIMBA de paiêro pouco antes de me ADENTRAR no carro. ENTONCES, todos sabem que CATINGA de cigarro é foda. (paiêro = CATINGAx10)

(Sempre me incomodo com a possibilidade de que eu posso incomodar alguém. Gosto disso.)

No chacoalhar caracteristico das traseiras dos BUSES (similar a um ass shacking) seguimos viagem. Me transportei pralgum universo paralelo, com a ajuda do meu inseparável MP4. Fones, música. Enfim, paraíso.

Primeira parada: rodoviária. Embarcaram senhores. Um deles numa vibe USAINBOLTIANA de fazer inveja a qualquer RUNNER afro-descendente. Com toda a sabedoria de um MATUSALÉM contemporâneo, aproveitou a condição estática do veículo em questão, para realizar sua performance e evitar possíveis quedas.

O segundo senhor, a la dança da cadeira, pegou o primeiro lugar que viu. O terceiro, tomou de assalto o que era ocupado pela metade gigantesca do CHASSI DE GRILO – pimpolho muito sapeca, filho da jovem senhora introduzida aqui interiormente.

Rolou um OPA entre as partes. Eu e vovô.

No gostoso ASS SHACKING automotivo, seguimos viagem. Chassi, jovem senhora, vovô, eu e a gordinha com sua espiritualidade ENCLAUSURADA.

Na PRAXIS do transporte coletivo, rola uma pequeno campeonato para ver quem desce primeiro. Um empurra-empurra divertido, uma avalanche de gentilezas.

Com alguns lugares disponíveis, o vovô do OPA resmungou algumas coisas e tentou se ALOCAR numa posição geograficamente mais confortável. Levantou-se e foi em direção à terceira fila de cadeiras. Uma TIA DIRETORA de uma escola local, tomou a frente do vovô e sentou-se.

Percebi pitadas de INDIGNAÇÃO e ÓDIO nos olhos daquele homem.

Ainda de pé, ao lado do seu objetivo e eis que a TIA diretora OBSTRUI a passagem de nosso quase herói.

Vencendo todos os seus demônios, abaixou a cabeça e voltou à ESTACA ZERO.

Eis que senta, e me diz: “Só me restou voltar pra cá. Esse povo não liga pra velho mesmo. A gente é muito excluído, sabe?”. Respondi, compartilhando alguns de seus demônios, numa furiosa e explosiva raiva: “É, sei.” E ele: “Mas, quer saber? Nâo ligo. Ainda to muito esperto, ando pra todo lado. To com 75 e ainda por cima criei 10 filhos.” Eu: “Uai, nem parece! Tá bem, hein!!!” Ele: “Sabe o que eu mais me orgulho nisso tudo?” Eu: “Não.” Ele: “Criei 10 filhos, e nenhum deles NUNCA FUMOU!”. Eu: “Pois é, isso é muito bão!”

Depois disso ele ainda contou algumas histórias. Nada relevante.

Chegamos ao local de APEIO do nosso quase herói, quando ele se levantou e disse: “DEZ FILHOS e nenhum deles fuma e NUNCA FUMOU!”

Pensei nisso a viagem toda.

Acho que isso é um sinal, pensei.

É um sinal.

Desci.


4
Nov 09

Elmore RULES

para escrever um romance, ou, o que quer que seja.

1. Nunca comece um livro falando sobre o tempo.
2. Evite prólogos.
3. Nunca use nenhum verbo para carregar o diálogo que não seja “dizer” (tipo, “ele disse” em vez de “ele justificou”, “afirmou”, “disparou” etc.)
4. Nunca use um advérbio junto com “disse” (como em “disse ele seriamente”).
5. Mantenha seus pontos de exclamação sobre controle.
6. Nunca use as palavras “suddenly” ou “all hell broke loose”.
7. Use pouco gírias e dialetos regionais.
8. Evite descrições detalhadas de personagens.
9. Não detalhe muito coisas e lugares.
10. Tente deixar de fora a parte que os leitores tendem a pular.

e uma de brinde.

“Se soa como algo escrito, eu reescrevo. E se a gramática está atrapalhando, passe por cima dela. Não posso permitir que o que aprendi na escola atrapalhe o som e o ritmo da narrativa. É minha tentativa de permanecer invisível e não distrair o leitor da história com um texto óbvio. Como dizia Joseph Conrad,  as palavras não podem bloquear o que você tem a dizer”.

Daqui, ó.


29
Sep 09

Reconhecimento

João era o melhor lenhador de Santana. O melhor. Não gostava que dissessem isso dele. “Eu simplesmente faço o meu trabalho” – dizia. Falava pouco. Chegava ao trabalho sempre antes do sol. Sentado ao pé de uma de suas futuras vítimas, observava o horizonte, como quem coordenasse a aurora todos os dias.

Durante um dia, entre um cigarro e outro, era capaz de derrubar 27 árvores. Seus colegas, no máximo 8. Ele era o melhor. Ele nem ligava com a injustiça de ganhar o mesmo que os outros, ou até menos. Tinha esposa e 3 filhas. Tinha ambições também, mas esquecia delas rapidamente quando lembrava das meninas em casa. O trabalho era suficiente para o sustento. O tempo, passava.

Seu chefe também fora lenhador um dia. Agora, não mais. Admirava o trabalho de João. Observava todos os dias aquele homem. O admirava, mas tinha um certo desprezo em seu olhar sempre que eles conversavam, o que ocorreu umas duas ou três vezes nos 10 anos e 10 meses em que João trabalhara naquela fazenda.

Um dia o Chefe pensou em agradar o funcionário de alguma forma. Grande parte de sua produção vinha do suor de João.

Na véspera de aniversário de 11 anos de trabalho do seu melhor lenhador, o chefe o chamou ao pequeno escritório a uns 200 metros de onde ficavam os trabalhadores. João estranhou o chamado. Nunca precisara ir ao escritório do chefe todos estes anos. “Será que fiz algo errado? Mas o que diabos poderia ser?” – pensava o preocupado João com as filhas na cabeça.

Ao entrar no escritório – um cômodo, mesa, duas cadeiras, um bebedouro pequeno e um armário – , encontrou seu chefe sentado em sua cadeira de chefe, e em cima da mesa uma caixa. Perguntou o que era. O chefe discursou sobre o quanto seu trabalho era excelente, sua capacidade de produção, seu empenho e dedicação nestes, agora, 11 anos de trabalho.

João sorriu.

O chefe, continuou o seu discurso, sob o olhar atento e agora mais calmo de João para o pacote em cima da mesa. O chefe até perguntou para João se ele sabia qual eram as Bodas de 11 anos. João ficou sem graça e disse que não entendia dessas coisas. O chefe contou a ele que eram Bodas de Aço, e que isso merecia um presente especial. Se levantou e entregou o pacote a João.

João sorriu novamente. Sentou-se e abriu a caixa. O presente: um machado novo.


17
Aug 09

Nada a declarar

“Agora eu tô passando por uma crise muito grande, sabe. Mas não é crise de criatividade. É crise temática. Eu não tenho nada pra dizer.”

Curta-metragem de Gustavo Acioli. A transcrição, aqui.

Uma porrada. Gostei.

Encontrei aqui, ó.


7
Jul 09

Uma luz que simplesmente não existe

Windows

“Era fim de tarde, começo de noite. Logo depois do sol baixar no horizonte, as sombras desaparecem por alguns segundos e o mundo é envolvido numa luz que simplesmente não existe.”

Trecho do fotográfico romance Lisboa, de J.R. Duran, que ganhei de um amigo ontem. Pequenino. Cem páginas apenas. Pra ler de uma sentada só.

O livro é a história de um nômade contemporâneo, que entre viagens de avião e estadias curtas em hotéis pelo mundo, acaba se envolvendo numa trama de sexo, traição e morte. Clichezão total. Mas, o estilo valeu a leitura. Narração extremamente visual. Não poderia ser diferente, óbvio.

Se não me engano é o primeiro e único romance dele. Até fiquei surpreso quando recebi de presente.

Enfim, a frase que abre o post valeu o livro inteiro. Em outros momentos, as descrições são verdadeiras fotografias do Duran. Belíssimas. Mas, essa observação sobre a luz, putz.

Lê aí.